Criatividade no caos organizado

Por Jean Sigel

Walt Disney é citado por muitos, e com muita razão, como um dos grandes inovadores de todos os tempos. Exemplo de criatividade aplicada aos negócios. Conseguiu algo por vezes difícil, para aqueles muito criativos mas pouco executivos: sonhar e ao mesmo tempo realizar.

Picasso é certamente outro exemplo de criador eficiente. Ou seja conseguia expressar sua genialidade com extrema competência, visão de negócios e ficou milionário em vida, fato raro na maioria dos gênios pintores do século XX. Dizia ele: “ o sonhador tem que se dar ao trabalho de realizar”.

Nos dias que passei no complexo de parques da Disney percebi que todo aquele mundo dos sonhos, para crianças e adultos de todo canto, só conseguiu tal feito porque está calcado em três pontos fundamentais, além de toda a criatividade: organização, logística e regras. Tudo funciona com extrema eficiência e precisão. Os shows, apresentações, fogos e paradas acontecem com a pontualidade de um relógio suíço. Não existe atraso, adiamento ou mudança de horário. Simplesmente acontecem e encantam os pequenos, que aos milhares lotam os parques o dia todo.

Jean

Fonte da imagem: Estúdio Trevisart

 

O agrupamento de parques e a marca Disney tornaram-se tão grandes e complexos que apenas grandes historias, sonhos e criatividade, mesmo sempre pulsantes, não dariam conta do recado. Por trás de tudo aquilo há um trabalho de logística impressionante. Todos os milhares de funcionários do complexo, desde a limpeza até quem veste a cobiçada fantasia do Mickey Mouse, tem muito clara sua tarefa e a cumprem com exatidão, seguem procedimentos muito bem treinados que sempre devem ser respeitados.

Não há “jeitinho” aqui e ali, aliás muitos confundem improvisação com gambiarra. Improvisar é saber lidar com circunstâncias rápida e eficazmente, mesmo que provisoriamente. Gambiarra é a tal coisa de “fazer nas coxas” e deixar assim até que o problema reapareça. Não é criatividade aplicável. Mas se precisarem improvisar, todos por lá também estão preparados pra isso. Há os organizadores de filas, em todos os brinquedos, que certificam que a fila não tenha quebra ou lentidão, há os “desempatadores” de filas nos caminhos do parque orientando os mais lentos ou desatentos, os seguranças sempre atentos e gentis prontos pra ajudar e supervisionar, os fotógrafos do próprio complexo espalhados estrategicamente em vários pontos para vender fotos aos turistas, os colocadores de cordas que demarcam os pontos exatos onde a próxima parada com personagens passará, e os limpadores de rua que as mantém sempre impecáveis para a turma do Mickey e todo o público ter a mesma sensação de que todos estão realmente em um mundo mágico.

Outra curiosidade que observei é que ali todos os funcionários, não importando o posto, são o próprio Mickey Mouse. Não vestem a roupa do rato famoso que encanta qualquer criança e até adultos, mas recebem, respondem e tratam a todos com a mesma generosidade, atenção e bom humor. Afinal de contas trabalham para Walt Disney World e representam essa marca quando atendem a um turista, e são responsáveis por ela. Seguem não só um treinamento rígido, mas sem duvida um propósito, um significado. Eles fazem parte de algo maior, que gera pertencimento a eles e a todos. Se uma empresa consegue gerar esse sentimento naturalmente em seus colaboradores, não precisará motivá-los para coisa alguma, pois já estão constantemente motivados pelo propósito.

Por essas e outras que tudo funciona muito bem por lá. Criatividade pura aliada a organização. Imaginação aliada a execução, encantamento aliado ao saber realizar. Ainda sim, o essencial esta na magia e na fantasia daquele lugar, de historias e sonhos criados.

Entretanto como contraponto a isso tudo, cito Nova York. A organização, tranquilidade e regras aplicadas não só nos parques da Disney mas nas ruas e cantos de Orlando dão lugar ao caos. Um caos que encanta e cria impressiona e inspira. Lá buzinas soam o tempo todo, a bagunça nas ruas, restaurantes lotados e metrôs fazem parte do dia a dia do nova-iorquino. As sirenes tocam sem parar, motoristas de táxi mal humorados não têm paciência para turista chato ou perdido, e nos restaurantes ou museus tudo acontece, eu diria, num caos autêntico, e como acontece. Apesar de aparente ou evidente desorganização e bagunça, Nova York é vanguarda sempre. Os restaurantes mais autênticos criados por nova-iorquinos da gema ou por centenas de imigrantes que dão à essa cidade o molho cosmopolita que tem. Os melhores shows, as feiras mais bacanas, os artistas mais inovadores, os de rua ou os da Broadway, a noite mais impressionante, o parque mais eclético e inspirador e as ruas mais cheias de vida e criatividade levadas pela mistura de raças e culturas que fazem dessa cidade talvez o centro urbano mais fascinante e moderno do mundo.

Então como explicar esse contraponto? De um lado a criatividade para aparecer ou influenciar necessita de organização e procedimentos. De outro ela acontece de forma caótica e imprevisível. Acho que não há receita única de bolo para inspirar, criar e inovar. O ato criador pode acontecer de várias formas nas pessoas ou nas equipes das empresas, mas talvez preferencialmente com mais facilidade por meio do velho mantra: equilíbrio. Criar e gerar ideias sem pré-julgamento, mas ao mesmo tempo saber o momento de julgá-las e filtrá-las. Criar livremente da maneira caótica que quiser, mas saber o momento de aplicá-las e executá-las. Ter imaginação livre e concentração na hora certa. O que se vê hoje nas empresas, é a busca pela inovação sem permissão para o caos criativo que possa gerar as ideias. Sem liberdade criativa, não há processo que seja suficiente para gerar o novo. Querem inovar, mas não permitem o erro. Querem inovar mas não permitem conexões e comunicação. Enfim…ao final o ideal não existe quando se trata de processo criativo e aplicabilidade prática. Mas quem sabe viver em estado de criatividade em meio a um caos organizado tem mais chances de inovar. Aquela história do: “eu me viro, me acho, me concentro e crio na minha própria bagunça”, porém, com metas, objetivos e produtividade. Cada um do seu jeito, com seu propósito, “crio, mas faço”.

Para fechar deixo duas frases de Walt Disney que me chamaram atenção em pontos diferentes do parque e acho que resumem um pouco essa historia: “Eu acredito em ser basicamente um criativo…”

“Mas todos os Sonhadores precisam de prazos…”

 

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