Empreendermos, a que será que se destina?

Desde que adentrei ao mundo do empreendedorismo de impacto, fico cada vez mais tocada pelas incríveis mulheres empreendedoras que têm cruzado o meu caminho, essa espécie engraçada, e, felizmente, não rara, à qual me pego observando as características comuns.

Fonte da imagem: Empreendedorismo Rosa

Em primeiro lugar, essas mulheres não são necessariamente empreendedoras de seus negócios. Além das mulheres donas de suas próprias empresas, há mulheres empreendedoras nas mais diversas áreas de atuação, sejam aquelas que trabalham no governo – e como brasileiros temos o maravilhoso exemplo de ter uma presidenta – ou que têm seus empregos no primeiro, segundo ou terceiro setor. O que quero dizer é que o empreendedorismo, essa capacidade de criar e transformar, não se restringe às pessoas que têm seus próprios negócios.

Se você olhar bem ao seu redor encontrará aquela professora que faz e acontece para melhorar o ensino de seus alunos e o astral da escola. É a que vai atrás dos pais dos alunos para trazê-los para a escola, dos comerciantes locais para apoiarem os estudantes e, dia a dia, segue tecendo uma rede positiva para a comunidade ao redor da escola. Tem também a secretária executiva que além de fazer todo o seu serviço mobiliza os vários setores da empresa em prol de uma causa, impulsiona a criação de um setor de voluntariado na empresa ou até a adesão a alguma campanha comunitária. Ou a mulher prefeita (como foi minha avó materna, em uma cidade de menos de 3000 habitantes no interior de Minas. Ela despachava com os funcionários a qualquer momento, inclusive no trajeto entre a casa e a Prefeitura; organizava um sopão local, que dava sopa para aqueles que não tinham o que comer; criou uma associação para mulheres artesãs, para a qual ela buscava apoio, tecido, equipamentos e também um mercado comprador, para vender as lindas peças de tear e de retalhos que saíam dali) que não está de fato presa ao que é a sua obrigação, fazendo sempre o possível e alcançável para melhorar o seu entorno. Vejo também todas as mulheres, com muita raça, que se dedicam ao seu sonho através da própria empresa: uma fábrica de doces, compotas ou calçados, uma escola de inglês ou de música, uma consultoria dos mais diversos serviços, uma marcenaria, um comércio de queijos ou artigos eróticos.

Independente da área de atuação e da forma escolhida para isso, vejo nessas empreendedoras uma característica comum bem marcante. Nenhuma dessas mulheres está trabalhando apenas para elas, para os seus negócios, para seus empregos, para suas ‘obrigações’. Para elas é muito natural que o trabalho expanda os limites comuns do que deve ser feito e passe a abarcar o que pode ou deveria ter que ser feito, sempre de forma muito mais comunitária que individual. Assim, para cada tarefa cotidiana realizada, várias outras microtarefas vão sendo feitas para a comunidade como um todo. Há o interesse por gerar empregos e por impactar positivamente a vida dos colaboradores, o que significa também impactar a vida de suas famílias. Há o interesse por melhorar a fachada da escola ou da empresa, e isso significa também embelezar o jardim da cidade. Há o interesse em fortalecer o próprio negócio e também em ver as colegas empreendedoras fortalecendo os seus, e para isso trocam-se ideias, palpites, desabafos e soluções.

Empreender, para essas mulheres, é transformar vidas e comunidades. Isso tudo me leva a crer que toda mulher empreendedora carrega consigo um grande potencial para ser, naturalmente, uma empreendedora de impacto. Essas mulheres de origem, formação, gosto e valores os mais diversos, compartilham, no cerne de suas atividades, o gosto pela transformação e por fazer acontecer. A todas elas, que muitas vezes nem sabem que são empreendedoras e muito menos que são empreendedoras de impacto, a minha admiração e o meu orgulho.

Natália Menhem é cientista social pela Universidade Federal de Minas Gerais, com experiência em estudos socioeconômicos e engajamento de comunidades. É co-fundadora e co-diretora da startup Sustenta Projetos, que realiza diagnósticos de comunidades e trabalha para o fortalecimento do empreendedorismo de impacto. Integra a equipe organizadora do TEDxBeloHorizonte.

0 Comentário

  1. ac.nogueira@terra.com.br'
    Ana Carmen 4 de abril de 2013 10:07 Responder

    Lindo artigo. Empreender é transformar, procurar o melhor para o bem comum.

    • pilarlacerda@hotmail.com'
      maria do pilar lacerda almeida e silva 4 de abril de 2013 13:07 Responder

      Entender empreendedorismo com transformação, atuação na sociedade, participar. Que bonito!

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