Infinitos

Por Ana Carmen Nogueira

Algumas pessoas possuem e constroem histórias de vida que me encantam. Desde muito pequena adoro encantos, contos de fadas, fábulas, histórias, segredos. Caminho pelas ruas olhando janelas, observando fiapos de coisas dentro dos apartamentos e imagino histórias. Prefiro olhar os ambientes solitários que me dão a ideia de presença. Presenças encantam. Algumas pessoas conseguem construir locais com mais presença do que outras e esses espaços contam histórias que não são escutadas, mas sentidas. Histórias que penetram em nossa pele e invadem nossa mente, quando você se dá conta está completamente encantada.

Espaços de artistas são assim, locais de encantamento. São olhares diferentes sobre o cotidiano que é guardado em pequenos espaços. Alguns artistas recortam, colam, costuram coisas que deixamos de lado em nossas casas. Essas transformações do objeto cotidiano em uma expressão nos faz perguntar “como é que eu nunca havia pensado nisso?”. Algumas vezes sorrimos para dentro, outras temos que tocar ou cheirar. Coisas provocativas nos deslocam e nos oferecem novos olhares sobre o mundo à nossa volta.

 

Assim, é o espaço de Surama, com infinidades de CDs recortados em pequenos caquinhos onde são grudadas folhas coloridas de páginas de revista que alguém deixou de lado. Esses caquinhos coloridos pelas revistas são ajeitados poeticamente sobre uma superfície de madeira e, em um movimento lento e transformador, vão construindo histórias de mulheres negras, que vivem ou viveram tão longe, dentro de nós que somos totalmente tomadas por elas. É assim que os mundos de Surama Caggiano nos invade.

Surama tem vários mundos, espaços, histórias, segredos. Enrola fios e os transforma em cestas. Objetos que lembram nossas histórias passadas revisitadas pelo olhar contemporâneo da artista. Nada é tão de hoje, tudo carrega um passado, uma história e ao mesmo tempo respira a contemporaneidade.

Estar no ateliê de Surama é um passeio para os sentidos. Escuto sua fala e sua busca identitária entre dois mundos, o europeu e o africano, mas é no interior da Bahia que essa mulher retirou toda a sua força. Gosto de passear pelos mundos de Surama, pois eles estão sempre explodindo. Existe um eterno pulsar de energia que a faz sempre buscar algo. Acho que assim são as pessoas que transformam mundos, buscam força e energia em suas raízes, em seus ancestrais e suas histórias pessoais. Movimento contínuo de dentro para fora e de fora para dentro.

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