Quem canta seus males espanta!

Um lugar onde idosas possam passar o tempo, descansar em uma rede no quintal ou mesmo vendo televisão, ensaiar suas cantigas de roda com as amigas, ter acesso a atividades básicas como fisioterapia, ginástica, aulas de música e de teatro, sendo cuidadas, mas mantendo-se em atividade constante – por exemplo, não precisa de ninguém para servir café da manhã para elas, elas mesmos farão isso. No mesmo lugar, espaço para convivência com crianças e jovens, momentos de troca de conhecimento, ensaios coletivos, aulas e oficinas, além da pura, simples e sempre enriquecedora, convivência entre pessoas de gerações tão diferentes. Sim, estamos falando de um des-asilo. Ou da sede das Meninas de Sinhá!

Fonte de Imagem: Catarse

As Meninas de Sinhá são um grupo de idosas que cantam e dançam cirandas de roda há mais de 15 anos, lideradas, desde o início, pela Sra. Valdete Cordeiro, ou Dona Valdete, como é conhecida em Belo Horizonte. Dona Valdete veio da Bahia pequena e foi criada por uma família rica em Belo Horizonte. Desde menina era irreverente: chegou a escolher um dia para o seu aniversário, já que não sabia quando era – escolheu o dia 07 de Setembro, pois achou muito bonito existir um dia da Independência. Mais tarde, ela se casou e se mudou para o bairro Alto Vera Cruz, periferia de Belo Horizonte, que nem abastecimento de água tinha. Logo se chocou com aquela realidade. Vinha de um bairro central e bem servido por infraestruturas e serviços públicos e então se deparou com um bairro onde os moradores não tinham direito a ter direitos.

Dona Valdete sempre atuou pela comunidade e, em suas andanças, começou a reparar o tanto de mulheres que estavam todos os dias na porta do Posto de Saúde do bairro, aguardando para pegar remédios antidepressivos. Via que essas mulheres estavam sempre meio lerdas, devido aos remédios que tomavam. Começou a chamá-las para conversar, para entender o que acontecia com elas para precisarem tanto assim desses remédios. Levou um ano para conseguir ter 30 mulheres reunidas, e, ouvindo-as percebeu que estavam tristes e, principalmente, sem pessoas com quem conversar. Ela começou a sugerir receitas populares para o sono, como alface embaixo do travesseiro, por exemplo, e a propor atividades para realizarem juntas. Começaram com ginástica, mas logo o grupo estava propondo que dançassem e cantassem cirandas de roda. Várias das integrantes tinham deixado de tomar os tais remédios antidepressivos e tinham, inclusive, recuperado a saúde física.

Hoje, as Meninas de Sinhá são compostas por 32 mulheres, que fazem shows (elas tem até compositora própria!) e oficinas de brincadeiras e cultura popular para crianças e adolescentes em escolas. Em 2013, registraram sua metodologia como Tecnologia Social certificada pela Fundação Banco do Brasil. Já gravaram dois cds e estrelaram um livro, e ainda tem sonhos grandes: um deles, a gravação do DVD (quem quiser contribuir é só clicar aqui, a campanha do Catarse vai até o dia 26/11), o outro a criação da sede.

Conviver com as Meninas de Sinhá, para mim, significou vislumbrar novas possibilidades de interação entre jovens e idosos, resgatar a importância do papel dos idosos – que tanto têm a ensinar – em nossa sociedade, e, mais do que isso, ver o despertar de um poder de reinvenção de papeis e realidades, pessoais e coletivas.

No mês de novembro, além de trabalharmos para a captação do valor necessário para a realização do DVD delas, via Catarse, as homenagearemos no evento Ciranda com pRosa | Belo Horizonte (inscrições aqui), recolhendo materiais de escritório e de limpeza para a atual sede delas. Quem preferir poderá fazer uma contribuição para o projeto do DVD e nos enviar o comprovante, no lugar da doação de materiais. Vamos espalhar essa causa, que mais que uma causa, é um feito, um sonho e uma possibilidade de que os nossos idosos vivam com mais dignidade.

 

Natália Menhem é cientista social pela Universidade Federal de Minas Gerais, com experiência em estudos socioeconômicos e engajamento de comunidades. É co-fundadora e co-diretora da startup Sustenta Projetos, que realiza diagnósticos de comunidades e trabalha para o fortalecimento do empreendedorismo de impacto. Integra a equipe organizadora do TEDxBeloHorizonte e é embaixadora do TEDx no Brasil em 2013.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

nove + 13 =