Por Silmara Almeida
Talvez uma das maiores ilusões humanas seja acreditar que seremos felizes quando a vida finalmente se tornar exatamente como desejamos.
Esperamos pela conquista.
Pelo relacionamento ideal.
Pelo reconhecimento.
Pela estabilidade.
Pelo dia em que tudo estará em ordem.
Pela vida com mais paz.
E, enquanto esperamos, muitas vezes deixamos de perceber a vida que já está acontecendo.
Ouso até dizer que você já é feliz e não sabe.
Porque a felicidade também está na consciência de reconhecer aquilo que, embora simples, desperta em nós uma sensação de pertencimento à própria vida.
Está no café que saboreamos pela manhã.
Na possibilidade de tomarmos um banho ou fazermos uma refeição sozinhos sem precisar de ajuda de alguém.
No abraço que recebemos.
Na conversa que nos toca.
Naquilo que conquistamos depois de tanto esforço.
Na tranquilidade de um momento.
Na possibilidade de recomeçar.
Na perspectiva existencial, não podemos escolher e não temos o controle de todas as circunstâncias que a vida nos apresenta, mas podemos construir uma relação consciente com aquilo que vivemos.
A realidade é inegociável.
Ela contém perdas e ganhos, encontros e despedidas, prazer e dor, felicidade e tristeza. E talvez seja justamente a experiência da vivência da tristeza que nos permita reconhecer a profundidade da felicidade.
Sendo assim, a felicidade é o contraponto da tristeza.
Para saber o que é felicidade, precisamos ter experimentado a tristeza. Para compreender a luz, precisamos conhecer a sombra.
Isso não significa romantizar o sofrimento, tampouco acreditar que devemos estar felizes o tempo inteiro. Significa compreender que a existência humana é feita de movimento.
Logo, sentir é estar vivo.
E tomar consciência do que sentimos é uma forma de nos aproximarmos de quem verdadeiramente somos. Muitas vezes você permanece em uma situação que te faz ficar estagnado vivendo algo que não te faz mais sentido. E por quê? Porque você acredita que aquilo faz parte das suas escolhas e precisam ser vividas sem a menor condição de mudar a realidade porque vem o sentimento da culpa, da responsabilidade ou da obrigação de permanecer em um lugar que não te traz felicidade, conforto ou paz.
A felicidade, portanto, cai em um lugar de sofrimento, e o sofrimento na verdade não precisa ser uma condição permanente.
Pode ser um estado de consciência.
Um olhar mais atento para a sua própria existência. Uma capacidade de reconhecer o que existe e entrar em movimento ao invés de viver aprisionado ao que ainda falta.
Talvez a pergunta não seja:
“O que eu preciso ter para ser feliz?”
Mas sim:
“O que existe hoje na minha vida que eu ainda não aprendi a viver ou reconhecer como felicidade?”
Porque, muitas vezes, a felicidade não está esperando por nós no futuro.
Ela está silenciosamente presente no agora, esperando apenas que você tome consciência e olhe para ela com um olhar mais atento e consciente.
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