Empoderamento Feminino

Memórias coletivas: quando a vitória também deixa perguntas

Por Camila Franco

Hoje apareceu para mim uma sugestão de passeio turístico.

Páteo Alfacinha: “vila” escondida em Lisboa tem restaurantes e vista para o Tejo.

E, imediatamente, fui transportada para abril de 2018.

Não são muitas as viagens que fiz na vida. Por isso, algumas permanecem guardadas não apenas em fotografias, mas em objetos, cheiros, lugares e, principalmente, sentimentos.

Visitamos aquela vila durante uma viagem a Portugal. De lá trouxemos um lenço, uma boina e boas lembranças.

Mas, olhando para trás, percebo que aquela viagem carregava muito mais do que turismo. Era um misto de alegria, cansaço, satisfação, prazer e também tristeza.

Muitos sentimentos para uma premiação institucional.

Atravessar o oceano e colocar os pés onde nossos antepassados pisaram foi uma realização pessoal.

Estar ali com cerca de 200 pessoas, entre milhares de funcionários da empresa, celebrando uma conquista coletiva, também. Naquela época, éramos aproximadamente 13 mil funcionários.

E nós estávamos entre os que recebiam os louros. Éramos o time de vendas e merchandising.

O time vencedor.

Tínhamos o melhor share — a maior fatia de mercado — em muitas categorias. Éramos líderes em vários segmentos. E havia um sentimento muito forte de pertencimento.

Nós éramos os melhores dos melhores.

Mas hoje, alguns anos depois, gosto de revisitar essa memória com outros olhos.

Porque vencer também pode ensinar.

E, às vezes, ensina justamente aquilo que não percebemos enquanto estamos correndo para chegar ao pódio.

  1. Conhecer as regras do jogo

Naquele ambiente, aprendemos que cada detalhe contava.

Cada ponto.

Cada indicador.

Cada execução.

Era uma maratona de meses.

Grandes sonhos exigiam grandes sacrifícios.

  1. Aprendemos a conhecer nossos rivais.
  2. A conhecer nossa equipe.

A reconhecer nossos pontos fortes e nossas fragilidades.

  1. A observar a concorrência.

A seguir padrões, métricas e orientações.

E havia uma lógica muito clara: se todos fizessem a sua parte, o resultado apareceria.

Funcionava.

Tanto que chegamos àquela viagem.

Mas havia uma pergunta que talvez não fizéssemos com tanta frequência:

a que preço?

Quando pessoas diferentes são tratadas da mesma maneira.

Cada pessoa tem uma história.

Um limite.

Uma forma de reagir à pressão.

Uma necessidade.

Uma maneira de trabalhar.

Uma maneira de viver.

E quando tratamos pessoas diferentes como se fossem iguais, alguma coisa inevitavelmente se perde.

Talvez seja justamente aí que uma cultura de alta performance possa se tornar perigosa.

Porque o discurso da superação é sedutor.

Grandes sonhos.

Grandes desafios.

Grandes resultados.

Mas, quando o sacrifício passa a ser tratado como condição permanente para pertencer ao grupo dos vencedores, começamos a naturalizar aquilo que deveria nos preocupar.

O cansaço.

As noites mal dormidas.

Os domingos em que a cabeça já começa a se preparar para a segunda-feira.

As horas e horas de trabalho.

A sensação de estar sempre sendo avaliado.

A competição entre colegas.

O medo de ficar para trás.

A necessidade de provar, continuamente, que você merece estar ali.

E os gatilhos começam a se multiplicar.

Eles deixam de ficar restritos ao ambiente profissional.

Invadem a vida pessoal.

Você vigia tanto tudo ao seu redor que começa a se sentir vigiado.

Tudo vira motivo.

Tudo vira munição.

A guerra está armada.

Inteligência emocional para quê?

Foi muitos anos depois que fui compreendendo melhor algumas dessas experiências. E talvez por isso Daniel Goleman seja uma referência tão importante na minha trajetória de desenvolvimento pessoal.

Seu trabalho sobre inteligência emocional me ajudou a compreender que desempenho não é apenas resultado, técnica ou capacidade intelectual.

Existe um mundo interno acontecendo enquanto estamos tentando alcançar nossas metas.

Reconhecer emoções.

Compreender nossos comportamentos.

Perceber o que acontece nas relações.

Desenvolver autoconsciência.

Aprender a lidar com conflitos.

Tudo isso também faz parte daquilo que chamamos de competência.

E talvez uma das grandes perguntas para as organizações contemporâneas seja justamente esta:

Estamos ensinando pessoas a vencer ou estamos ensinando pessoas a viver enquanto trabalham?

Porque não adianta construir equipes altamente produtivas se o preço da produtividade for a deterioração das relações, da saúde emocional e da própria vida.

E se felicidade não fosse o prêmio?

Outra referência que me acompanha há anos é Lúcia Helena Galvão, professora da Nova Acrópole do Brasil.

Estou curiosa para ver sua palestra “Felicidade como um trabalho interior” no Congresso Internacional da Felicidade deste ano.

Porque existe uma armadilha muito fácil de cair:

acreditar que a felicidade estará esperando por nós depois da próxima conquista.

Depois da promoção.

Depois do reconhecimento.

Depois da viagem.

Depois do prêmio.

Depois da meta.

Depois daquele grande resultado.

Mas e quando chegamos lá?

E quando o avião pousa?

E quando recebemos o reconhecimento?

E quando estamos entre os 200 escolhidos?

O que acontece depois?

Talvez a felicidade não seja uma linha de chegada.

Talvez seja uma construção cotidiana.

Um trabalho interior.

Uma maneira de nos relacionarmos conosco, com os outros e com aquilo que fazemos.

Isso muda completamente a pergunta.

Não é mais apenas:

“Como podemos ganhar?”

Mas:

“Quem estamos nos tornando enquanto tentamos ganhar?”

Afinal, quem cabe na foto da vitória?

Naquela viagem, cabiam 200 pessoas.

Era um número limitado.

E talvez essa seja uma das coisas que mais me fazem pensar hoje.

Quando existe um número limitado de lugares no pódio, a lógica da competição pode fazer colegas que poderiam ser amigos se transformarem em adversários.

Cada pessoa começa a proteger seu lugar.

A cuidar de seus próprios números.

A fazer o que for necessário para continuar no jogo.

E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser uma conquista coletiva pode se transformar em uma disputa individual.

É curioso porque a fotografia registra todos juntos.

Mas a memória também carrega aquilo que não aparece na fotografia.

As pessoas que ficaram pelo caminho.

As relações que se perderam.

Os limites ultrapassados.

Os silêncios.

Os cansaços.

As pequenas violências cotidianas que uma cultura excessivamente competitiva pode produzir.

Não escrevo isso para diminuir aquela conquista.

Muito pelo contrário.

Eu fiz parte daquele time.

Eu sei o orgulho que foi chegar até ali.

Sei o quanto trabalhamos.

Sei o quanto aprendemos.

Sei que existia competência, dedicação, estratégia e esforço.

Mas hoje consigo fazer uma coisa que talvez não fosse possível naquela época:

celebrar a vitória e, ao mesmo tempo, questionar o caminho.

Talvez isso também seja amadurecer.

Não precisamos apagar nossas conquistas para reconhecer seus custos.

Não precisamos transformar toda experiência em vilã para aprender com ela.

E talvez as memórias coletivas tenham justamente essa função: voltar para aquilo que vivemos, olhar de outro lugar e perceber coisas que, enquanto estávamos dentro do jogo, não conseguíamos enxergar.

O lenço e a boina continuam guardados.

Lisboa continua sendo uma lembrança bonita.

O Tejo continua fazendo parte daquela fotografia.

Mas hoje, quando penso naquela viagem, não lembro apenas dos vencedores.

Lembro das pessoas.

E me pergunto: quantas pessoas precisam adoecer para que uma organização possa continuar dizendo que está vencendo?

Talvez essa seja uma pergunta importante para qualquer liderança.

Porque resultados importam.

Metas importam.

Reconhecimento importa.

Mas pessoas também importam.

E, no fim das contas, talvez a verdadeira vitória não seja chegar entre os 200.

Talvez seja conseguir chegar até lá sem perder de vista quem somos, quem caminha conosco e quem estamos nos tornando ao longo do caminho.

Escrito por @Camila Franco, a franca: Feminista, comunicóloga, mentora e líder de projetos no Sebrae/PR, especialista em vendas, voluntária em causas sociais e ambientais. Apaixonada pela maternidade, criadora do @MaternidadeFranca fanpage e grupo de acolhimento materno desde 2016.

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